“O que me fascina no cinema é que ele não é, como se quer acreditar, o contrário da fotografia” – Varda
No filme documentário de 44 minutos “Ydessa, les ours et etc..” sobre a artista e coleccionadora Ydessa Hendeles, Agnès Varda aborda a exposição fotográfica Teddy Bear Project no museu Haus Der Kunst (antigo museu de Arte Propagandista ao regime Nazi) em Munique.
Ydessa é fascinada por ursos de peluche de todas as épocas, formas, cores e tamanhos. Esta exposição é a colectânea de milhares de fotografias pesquisadas e adquiridas durante anos de investigação, dotadas de um pormenor: a existência de um urso de peluche.
Usando a narrativa em off, Varda apresenta a personagem Ydessa, bem como a sua reacção à exposição e com os depoimentos dos visitantes, representantes do museu, da própria artista e da sua mãe.
Durante o filme, a artista refere que a inspiração para começar a pesquisar surgiu quando se deparou com a foto antiga de um primo falecido em Auschwitz. O curioso é que não há nenhum urso presente nesta foto. . As fotografias retratam militares, atletas, crianças, mulheres nuas sempre acompanhadas de ursos e são dispostas do chão ao topo do museu. Um ponto interessante é o facto da foto de entrada da exposição pertencer à fotógrafa Diane Arbus. A ausência do passado genealógico de Ydessa poderá tê-la conduzido ao desconhecido, incitando nos momentos estáticos da fotografia, novas possibilidades de criação e interpretação. Toda esta infinidade de ideias é refutada quando Varda explora um espaço desconhecido, a surpresa: uma escultura de Hitler chamada “Him” por Maurizio Cattelan, de costas para as salas anteriores, ajoelhado e a olhar para cima como se estivesse a rezar ou a pedir perdão directo ao rosto dos espectadores. O branco da parede pode significar a limpeza, a limpeza que Hitler fez à raça judia. Há o reflexo da figura de Hitler no rosto de quem vê a exposição, e se essa mancha é pertinaz o suficiente para não ser totalmente eliminada, torna-se necessário avivá-la, pelo menos como denúncia. Por um lado, os “teddy bear” são versões miniaturas dessas manchas. Por outro, partilham a memória afectiva de gerações em gerações, a guardar e a sintetizar laços familiares e “épocas de ouro”.
